domingo, 27 de maio de 2012

Abandonar o navio!

Essa é muito mais que uma história ou uma premonição. É um relato que, por mais que se disfarce de mirante – que enxerga as situações de longe – acontece de dentro para fora, se transforma. Surge em uma ferida, termina em amputação.

Foto: supershaggy

Abraçada pelas marés, uma porção de terra não muito antiga sobrevivia com a presença nociva de seus germes. De sua beleza, acometida severamente de mazelas, só restavam uns três ou quatro cacos da herança trazida por navios já perdidos no tempo e mais alguns bocados de lembranças. Era uma ilha não muito indispensável no mapa, de limites definidos ao sabor das águas e da astúcia humana. Suas avenidas tinham um quê de modernidade imposta e mal sustentada, em conformidade com o cenário de um desenvolvimento mal aplicado.

Certo dia, a pequena ilha amanheceu no mais agressivo silêncio. As ruas, antes habitadas por todo tipo de gente, agora davam passagem apenas a umas poucas folhas secas e alguns papéis desgarrados que voavam conforme a vontade do vento. Os poucos habitantes que ainda insistiam em lá morar abriram os olhos atônitos ao perceber que, como companhia, só tinham os prédios em ruínas, grandes crateras no asfalto carcomido e um ar carregado de abandono. O jornal das seis anunciava o êxodo em massa, porém havia algo de diferente. Não havia alvoroço, tumulto ou gritaria: as balsas se enchiam sem nenhuma lágrima cair; os ônibus lotavam sem ouvir-se uma voz sequer; e os aviões decolavam em grande calmaria. Parecia uma grande procissão fúnebre e triste, porém conformada.

A situação já se arrastava havia alguns meses.

Os pioneiros da viagem sem volta começaram a surgir e poderiam ser contados nos dedos. Mas com o tempo a cidade foi murchando, foi sendo engolida por si mesma, e cada vez mais gente esgotava os bilhetes de passagem conforme os dias iam se passando.

Nessa manhã, quando nem mais os pássaros tinham força de se expressar, já não havia esperança de soluções para aquela que tinha sido a cidade da infância de muita gente. Não havia mais lembranças, nem iniciativa de lutar por algo já perdido entre as duras estátuas onipresentes e os logradouros viciados em um só sobrenome. Já não havia mais porque brigar pela liberdade. A única fonte de libertação estava no tão comentado êxodo. A saída tinha hora, data e assento marcados. Peguei minhas malas, tomei o avião, e enquanto ele levantava voo, consegui ver ainda um último monumento de concreto ruindo junto com a cidade inteira, sendo engolido pelo mar, afundando junto com aqueles que, domados e em silêncio, resolveram ficar e ver a completa destruição da ilha da qual nunca mais se ouviu falar.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Desvendando a arte de fotografar

Nesse último fim de semana tive a oportunidade de participar de um minicurso de fotografia, idealizado pela fotógrafa Veruska Oliveira e realizado pela equipe do seu estúdio homônimo. Veruska é pedagoga por formação mas acabou fazendo do hobbie de fotografar a sua verdadeira profissão. Lançou recentemente o livro "Terra de Palmeiras - As quebradeiras de coco babaçu no Estado do Maranhão", reunindo fotos de mulheres de vida dura e rotina difícil no interior do estado. Atualmente desenvolve outros projetos, entre eles um em conjunto com jovens da área Itaqui-Bacanga.

Capa do livro da fotógrafa Veruska Oliveira

Durante os dias 19 e 20 de maio, das 8 à 12hrs e das 14 às 18hrs, os alunos inscritos no curso puderam aprender muito mais do que apenas ligar e desligar uma câmera - equipamento que, para a maioria, era difícil de entender até aquele momento. Munidos de câmeras profissionais e semi-profissionais, após algumas dicas teóricas, seguimos para aulas práticas em campo - tudo em um clima de descontração, presente em todos os momentos do curso.

Uma das aulas práticas realizadas durante o curso

Mas o que deu pra aprender com tudo isso?

Me lembro de ter respondido à uma pergunta sobre o que eu esperava do curso, dizendo algo como desenvolver a sensibilidade do olhar e aprender técnicas que somassem aos meus conhecimentos. Porém, hoje posso dizer que não "somei", pois o que eu sabia era ínfimo perto do que aprendi, mas sim redescobri um mundo diferente e belo que a fotografia pode nos mostrar. Além disso, tive o bônus extra da experiência prática, o que sem dúvida foi super importante para fixar as novidades na mente. Em outras palavras, aprendi que fotografia vai muito além de simplesmente apertar um botão de uma câmera. Fotografia é técnica, dedicação; mas também sensibilidade, talento e, por vezes, sorte. Isso porque às vezes imprevistos acontecem, e para felicidade ou tristeza do fotógrafo podem resultar em algo diferente do idealizado. E eu também não poderia deixar de dizer: fotografia é, sem sombra de dúvidas, uma forma de arte.

Para quem se interessou no curso e pensa que a oportunidade passou, fiquem ligados, pois novas turmar serão formadas. A próxima será nos dias 23 e 24 de junho. As informações completas estão na fanpage, blog e site da Veruska.

Até mais!

domingo, 20 de maio de 2012

Tudo tem todas as coisas

Ilustração: Mariany Carvalho


Toda inocência tem seu mistério

Todo clichê teve seu dia de estreia

Toda maçã tem seu verme

Todo CD tem seu dia de vinil

Toda trivialidade tem sua importância

(E muitas vezes o importante é puramente trivial)


Toda misericórdia tem seu preço

Todo invencível tem sua fraqueza

E tudo tem todas as coisas

Mas nem todas as coisas têm tudo o que a gente quer.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Pelas ruas da Ilha, um sopro de arte

Devo confessar que só fui reconhecer o valor da arte urbana de uns tempos pra cá. Não sei se por sensibilidade ou simplesmente pela insistência do tema em volta e meia aparecer no meu cotidiano, mas felizmente cada vez mais tenho visto que essa expressão artística tão famosa chamada graffiti realmente é um sopro de arte na selva de pedra em que vivemos.


Cada vez mais atuantes na capital maranhense, graffiteiros e demais artistas têm utilizado o espaço urbano e as peculiaridades que ele oferece como um suporte para intervenções e críticas sociais. E onde dá pra ver tudo isso? É só passear pelas ruas da nossa ilha. Diversos muros e fachadas já ostentam belos trabalhos de artistas tanto anônimos quanto já conhecidos.

E onde mais a gente pode ver essa manifestação artística? Atualmente, na Galeria de Arte do SESC Maranhão. Hoje, por exemplo, aconteceu a abertura da exposição coletiva "4cem traços e cores de São Luís", com trabalhos de Gil Peniel, Edi Bruzac e Pablo (OVNI). DE 14 a 30 de maio, os visitantes poderão ver um pouco do que é esse universo fascinante do graffiti, não só nas paredes da galeria, mas também em telas e nas próprias latas de tinta utilizadas pra expressar os pensamentos e traços dos graffiteiros.

Recomendo a visita!

Exposição "4cem traços e cores de São Luís"
Visitação: 14 a 30 de maio de 2012, das 8h30 às 17h30.
Local: Galeria de Arte do SESC


Até!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...